terça-feira, 1 de junho de 2010

Entrevista de Al Capone

Correspondente pelo Times de Londres, Claude Cockburn entrevistou em 1930 o gângster Al(phonse) Capone. Mais tarde ele escreveu um livro sobre o assunto, chamado In Time of Trouble (1956).

É longa, mas recomendo a leitura.

A matéria em inglês pode ser lida neste site.

Tradução de Marcos Santarrita, do livro The mammoth book of journalism

Al Capone nasceu no Brooklyn, mas sua fama foi conhecida pela máfia em Chicago. O Lexington Hotel um dia foi um grande hotel familiar penso eu, mas agora seu grande e sombrio saguão estaria deserto se não fosse por uma dupla de sicilianos e um recepcionista que olhava por cima do balcão com a expressão de um proprietário de bar clandestino espiando um detetive em potencial pela grade.

Ele conferiu meu encontro marcado com um superior no andar de cima, e quando entrei no elevador senti os quadris e flancos delicafamente revistados pelas mãos de um dos sicilianos. Tem-se passar por duas ante-salas na primeira delas eu tive que esperar quinze minutos antes de se chegar ao escritório de Capone, que tomava um uísque servido por um homem que usava a mão esquerda para a garrafa e mantinha a outra no bolso.

Só que havia uma metralhadora nas mãos de um homem chamado MacGurn – que mais tarde vim a conhecer e até gostar – apontada pela porta entreaberta atrás da grande escrivaninha. O quarto do próprio Capone era quase indistiguível para um, digamos '”recém-chegado” milionário do petróleo texano. Além do queixudo jovem assassino do outro lado da escrivaninha, o que chamava a atenção eram as grandes, chatas e sólidas bacias de prata em cima da mesa, cheias de rosas. Eram agradáveis de ver, e tamém tinham um outro objetivo, pois Capone, quando agitado se levantava e mergulhava as pontas dos dedos na água em que flutuavam as rosas.

Eu estava um pouco embaraçado sobre como começar a entrevista. Naturalmente, o cerne de todas as entrevistas é chegar à tal pergunta: “O que te move?”, mas no caso daquele assassino milionário a abordagem dessa pergunta central parecia minada com perigosos impedimentos. Entretanto, ao me dirigir ao Lexington Hotel, eu dera a sorte de ver, creio que no Chicago Daily News, umas estatísticas apresentadas por uma empresa de seguros que tratava de expectativa média de vida dos gângsteres da cidade.

Esqueci exatamente qual era a expectativa e também que idade tinha Capone na época – creio que estava nos seus trinta anos. A questão, porém, era que de qualquer maneira ele tinha mais de quatro anos que o limite máximo considerado pela empresa para a expectativa de vida média de um gângster de Chicago. Isso parecia oferecer uma linha de abordagem mais ou menos acadêmica, e após os cumprimentos comuns perguntei a Capone se lera a estatística no jornal. Perguntei se achava a estimativa razoavelmente exata. Ele disse que lera. Achava que as empresas de seguros e a turma dos jornais na certa sabiam do que estavam falando.

- Nesse caso – perguntei –, que tal é ter, digamos, quatro anos acima da idade estimada?

Ele tomou a pergunta muito a sério e falou do assunto sem mais nem menos excitação do que o faria, digamos, a um homemao qual se pergunta se, estando a metralhadora na traseira de um bombardeiro, sabia da incidência média de baixas naquela ocupação. Aparentemente supunha que mais cedo ou mais tarde seria morto a tiros, apesar das complexas precauções que regularmente tomava. Acho que a ideia que seria preso – como mais tarde aconteceu – pelas autoridades federais por sonegação do imposto de renda naquela época nem cruzava sua mente. E afinal, disse, com um pedaço de sanduíche no fundo da garganta, e se não houvesse entrado naquele ramo? Que estaria fazendo? Disse que estaria “vendendo jornais descalço numa rua do Brooklyn”.

Levantou-se enquanto falava e esfriou os dedos na bacia de rosas à sua frente. Tornou a sentar-se, pensativo e suspirando. O que disse na certa era verdade e eu lhe disse, solidário com ele. Pelo jeito, exageradamente solidátio, pois enquanto eu falava, o vi olhando desconfiado, e até repreensivo. Minhas observações sobre a forma dura como o mundo trata os meninos descalços do Brooklyn foram interrompidas por um urgente aceno irado da mão gorducha.

- Escute – disse –, não vá pensar que sou um desses malditos radicais. Não vá pensar que estou derrubando o sistema americano…

Como se um invisível presidente de conselho o houvesse procurado para dar uma palavrinha sobre o tema da “nossa herança”. Referiu-se com desdenhosa repugnância ao socialismo e ao anarquismo.

- Meus negócios – repetiu várias vezes – são dirigidos segundo diretivas estritamente americanas, e assim vão continuar.

Revelou-se que isso se referia ao fato de que ele acabara de ser eleito presidente da Unione Siciliana, uma sociedade ligeiramente misteriosa, parcialmente criminosa, que na certa tinha raízes na máfia. Seu poder e importância variavam muito de ano para ano. Às vezes parecia haver indícios de que era uma sociedade secreta de verdadeiro poder, e em outras parecia ser do tipo da associãção beneficente, não muito mais ameaçadora do que, digamos, os Elks. A queixa de Capone no momento era que a Unione estava “ocupada com umas coisas da Black-hands”. (Black-hands, em italiano La Mano Nera, grupos criminosos organizados)

- Você imagina – disse ele – as pessoas se metendo no que chamam essas malditas brigas; o avô de alguém era morto pelo avô de outro sujeito, e este sujeito acha isso um bom motivo para matar o outro.

Disse que isso não era absolutamente fazer negócio. Sua visão do sistema americano começou a excitá-lo profundamente, e agora estava novamente de pé, curvando-se sobre a mesa como o presidente de uma reunião de conselho, os dedos mergulhados nas bacias de rosas.

- O nosso sistema – gritou – quer você o chame de americanismo, capitalismo, o que quiser, dá a cada um e a todos uma grande oportunidade, se a agarrarmos com as duas mãos e explorá-la ao máximo.

Estendeu a mão para mim, os dedos pingando um pouco, e me olhou severamente alguns segundos antes de tornar a sentar-se.

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